terça-feira, outubro 30, 2007

Estou bem

quarta-feira, setembro 19, 2007

"Anda, vamos embora"

Vamos ali viver um ano e já cá voltamos.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Adeus, que me vou embora

Vou daqui para a minha terra
Que eu desta terra não sou. JB

quarta-feira, julho 25, 2007

Sexy boy

Acabo a minha última oral, vou lá para fora sentar-me, esperar pela nota num banco de jardim mais à fresca, ligo o mp3 e começa a tocar a "Sexy boy" dos Air. Vem-me um sorriso parvo à cara e penso: "Este sexy boy já está de férias". BF

quinta-feira, julho 05, 2007

Método B (II)

Começaram os exames orais. JB

Método B

(Resposta a um texto demasiado optimista para meu gosto)

Temos dentro de nós mil guerreiros verbais: musculados e armados, loucos e cocainados. Nos dias de exame oral eles não nos servem de muito: acordam enfezados, amarelecidos e ressacados - tremem como varas verdes vendo as fileiras do inimigo no campo de batalha, porque se esqueceram da espada e do escudo em casa.
Os dedos de conversa não vão ser só dois, infelizmente: serão longas e estúpidas conversas, inócuas e circulares, onde tentamos perceber como raio o inimigo nos conseguiu amputar os braços e as pernas na planície.
- A Doutrina diverge...
- Terminou a sua oral.

Agosto servirá para estancar as feridas com álcool - muito e saboroso álcool - e dormir manhãs inteiras de janela aberta, com nenhum lençol além das pernas bronzeadas da miúda da noite anterior. Ou então andar, e andar, e andar, até nascerem bolhas nos pés - e das bolhas criarmos calos.
Depois, Setembro. O estúpido mistério permanente de Setembro. Nunca sei o que faço em Setembro - mas este ano fa-lo-ei dobrado em italiano. Sem legendas.
Não há qualquer final? O final é Agosto - sempre o Agosto. Mas nunca daquele ano.

Uma coisa é certa: nunca ninguém explicou de forma tão perfeita a agridoce desgraça de um estudante de Direito como tu: "As mulheres meteram-me a vida a Método B". JB

terça-feira, junho 26, 2007

Enquanto não há amanhã, ilumina-me

- Ouve, gosto de ti.
Tentaste definir-lhe o como e o quanto a adoravas, mas ainda não tinham inventado a música que vos explicava. O teu bolso a vibrar salvou-te das palavras que não chegarias a dizer. Querias atender o telefone - tinhas de o fazer, estavas à espera daquela chamada há horas, há meses, há anos. Desde o dia inesquecível, de que já te esqueceste, em que decidiste o que positivamente não serias daí a uns anos (agora) querias ouvir aquelas palavras que te esperavam do outro lado linha.
Ela, à tua frente, à tua espera, à espera que decidisses uma porra na vida,
- Atende a merda do telefone!
estava mais bonita do que nunca - o cabelo dançava-lhe estupidamente à frente dos olhos e colava-se-lhe nos lábios húmidos; o peito suspirava de vergonha, inchava de desejo - mas tinhas de atender o telefone. Recuaste com passos tímidos, pedindo-lhe - suplicando-lhe com um olhar dorido - que esperasse ali por ti.
- Estou? - gaguejaste, com o coração a mil à hora.
A voz do outro lado da linha, do outro lado do mundo, era mais ácida do que a voz que toda a vida imaginaras.
- De que serve voltar - soluçou, do lado de lá - quando se volta para o nada?
Olhaste para trás, alarmado - encontraste-a sentada, fazendo uma trança, cruzando no chinelo os dedos dos pés - e suspiraste de alívio. Sentiste no pescoço
- Sentiste?
sussurrarem-te o cheiro da tua camisola castanha de que tanto gostavas.
- Já cheira mais a ti do que a mim, miúda - costumavas dizer-lhe, apoiado nela, envolvendo-a com os braços, atrapalhando-lhe o jantar.
- Leva-me contigo.
Voltaste-te, surpreendido, desligando o telefone. Uma luz de guitarras vinda de onde ela se costumava sentar obrigou-te a fechar os olhos - e adormeceste.

Quando acordaste, estavas longe demais. Lá ao fundo, lá muito ao fundo, observaste-a coçar o nariz com a palma da mão, divertida.
Apertaste com mais força o nó cego que escondias há anos na garganta. Sem piano nem plateia, sem sopros nem cordas, sem um coro de pretos com palmas rechonchudas a seguir-te para todo o lado, fartaste-te de inventar a vida à tua volta - e decidiste viver.
- Por enquanto é preciso viver.
Infelizmente, simplesmente viver. JB

terça-feira, junho 12, 2007

E que tal uma battle?

"Estudos comparativos da Ota com Alcochete satisfazem autarcas da margem sul "

Esta história toda da Ota e das outras localizações faz-me lembrar o mágico mundo do Wrestling. Lá, há sempre um gajo numa tanga garrida que tem um daqueles cintos reluzentes de campeão e se gaba constantemente que é o melhor. E depois há um conjunto de armários em maiots igualmente coloridos que passam a vida a desafiar o campeão para um combate pelo título, vilipendiando a sua virilidade a cada hesitação.
Todo este dramatismo é muito giro, mas serve mais o propósito de entreter aquela parte do meu cérebro que se sacia com telenovelas do que para ficar realmente a saber quem é o mais forte. Até porque ja sabemos perfeitamente quem é que vai ganhar. BF

quarta-feira, junho 06, 2007

Hoje sonhei que...

...via um repórter da Sic Notícias a levar em directo com uma caganita de pombo no meio da testa.

O que eu adoro a excelência de conteúdos deste canal. BF

domingo, junho 03, 2007

O advogado José B. que queria cantar como o Jeff Buckley

- És um quase-quase, José B..
Parou para pensar na gravidade do que lhe tinha dito quando viu apagarem-se à sua frente os seus enormes olhos pestanudos. Reformulou que não era aquilo que queria ter dito, não daquela maneira - que não era necessariamente horrível ser-se quase-quase e que ele próprio, naquela idade, já tinha sido um.
- Deus deu-nos uma coisa tremenda, José B. - disse, chupando cavernosamente o cigarro que acendera - E essa coisa tremenda é a ambição.
José B., abalado, assentiu. Depois de uma adolescência dedicada inteiramente a destruir a sua Fé, tinha talvez agora arranjado um motivo forte para voltar a acreditar n'Ele: culpá-Lo pela sua pequenez. Achava aquela ideia, porém, demasiado incompleta. Pensava que Deus lhes tinha dado, não uma, mas duas coisas tremendas, tremendamente incompatíveis, só para lhes maçar o juízo. E essas duas coisas tremendas eram a ambição e uma vida pequena demais. Mas o outro continuava:
- Pensa comigo, José B., é bom ser um quase-quase... - e explicava-lhe que não era toda a gente que podia dizer que estava a acabar o terceiro ano do curso (José B. observava que com más notas), estudava música (José B. não considerava o que fazia um estudo), escrevia numa revista (José B. não lhe explicara ainda porque tinha deixado de escrever), jogava futebol e ainda tinha tempo para ter uma namorada. José B. não o corrigiu porque jogava mesmo futebol e gostava da ideia de ter uma namorada. Ela, a namorada, escusava de saber que o era.
- Adeus, José B., o quase-quase!
- Adeus, e ainda bem que sou um quase-quase! - suspirou por fim, das escadas, despedindo-se pela décima vez, ouvindo a "Whole Lotta Love" desaparecer com o trinco da porta. Percebeu, numa breve epifania, que o que ele queria mesmo era fazer uma peça de teatro sobre peças de fruta: escrevê-la e cantá-la e conseguir chorar em palco sem ter de olhar para os holofotes - e namorar para sempre uma menina gira, qualquer que ela fosse, muito loira e com olhos muito verdes, que roesse maçãs amargas a toda a hora e que não lhe desse demasiados cabelos brancos.
José B. não apanhou o autocarro e foi a pé, porque ouvira dizer que a guitarra às costas e os chinelos calçados lhe davam imensa pinta. E porque fazia de tudo para perder tempo e não estudar.

Lisboa andava florida de jacarandás naquele mês quente de Junho - e as miúdas, de braços salgados e areia nas sobrancelhas, perdiam o medo de andar à boleia no eléctrico.

José B. crescera e quase nada tinha mudado. O outro era amigo da família e vinha passar as tardes de sábado no jardim de casa dos seus pais. No escritório onde trabalhava tinha quase mais clientes do que os seus colegas, o que lhe chegava para arrendar um apartamento simpático com quase tantas assoalhadas como o do vizinho. Tinha quase os mesmos amigos que sempre tivera e que, como ele, quase se tinham esquecido das viagens que tinham feito. Ainda bebiam cerveja.
E Deus (em Quem, porque a sua mulher irresistivelmente lhe pedinchara, voltara a acreditar) dava-lhe ainda duas coisas tremendas. E essas duas coisas tremendas, tremendamente incompatíveis, eram o seu filho e uma guitarra eléctrica. JB

Prémio "Segundo melhor nome para uma pastelaria depois de Sandro 2000"

Telmo 2007. JB

sábado, junho 02, 2007

"O Zé faz falta"

Adoro o último cartaz publicitário do BES. BF

sexta-feira, maio 18, 2007

Não me estou a sentir muito bem...

Acho que contraí uma obrigação. BF

domingo, abril 22, 2007

Há coisas piores


Adriana Lima
JB

sexta-feira, março 30, 2007

Causa-efeito (a Grande Lição)

Quando o meu pai me disse, na sua ancestral sabedoria, que às vezes as coisas não correm como queremos porque há pessoas más no mundo, eu achei-o ingénuo. Era feliz na convicção de que tudo acontecia como devia acontecer e que o mundo se regia pela regra inabalável da causa-efeito. Hoje percebi que o ingénuo era eu - e que não há verdade mais triste do que a que o meu pai me ensinou.

Há pessoas más. JB

quinta-feira, março 15, 2007

"Sheikh" before usage

segunda-feira, março 12, 2007

Tempo é dinheiro

Estou endividado. JB

terça-feira, março 06, 2007

Respect my authority!

"Ministra da Educação quer mais autoridade para professores e conselhos executivos"

Sim. Quer que os professores possam expulsar os alunos da sala de aula e que, em casos mais graves, o Conselho Directivo possa suspender ou mesmo expulsar o delinquente da escola. Espera lá! Mas isto... BF

O sr. Eufemismo

"Cavaco Silva reconhece que "nem tudo correu bem" no indulto a foragido"

Espera lá. Mas houve alguma coisa que correu bem nessa história e eu não me dei conta? BF

sábado, fevereiro 24, 2007

Gestos que tocam

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sr. Valentim

Celebro hoje dois anos de namoro. Quando comecei a andar, curiosamente no dia dos namorados de há dois anos atrás, não estava preparado para uma relação duradoura. Não o escondo, senti interesse desde o nosso primeiro encontro - lembro-me dele fugaz e atabalhoado. Só admiti, porém, estar apaixonado, numa noite fria de cervejas, apoiado no ombro quente do meu melhor amigo.
A partir daí, tudo foi mais simples: aprendi, enfim, a falar de mim e a saber ouvir. Mostrei-lhe as minhas fotografias e as revistas de mulheres quase nuas que escondia debaixo da cama, fiz-lhe ouvir as músicas da minha vida e falei-lhe dos meus amigos, das minhas ideias, de quem eu era antes de tudo começar. Inventei o humor à volta do que éramos. Criei refúgios em palavras só nossas. Acreditei em nós e aprendi a amar.
Agora, finalmente, percebo porque dizem que o amor não escolhe idades, credos, sexos e editores de html.

Este blogue faz hoje dois anos. Vou levá-lo num jantar romântico. JB

domingo, fevereiro 11, 2007

Diz que somos um país civilizado

Até sempre, vou ali emigrar e já cá venho. JB

sábado, fevereiro 10, 2007

Dia de reflexão


Adriana Lima

JB

Peter Pan, és tu? (II)

"Gosto de ti. Gostava de poder lembrar-me: de como era esta expressão, antes de perder toda a sua força. Ou, o adoro-te. O adoro-te já não tem força nenhuma. O amo-te ainda menos. É necessário criarmos novas palavras. A primeira palavra que inventei foi para uma flor inventada. Isso não faz qualquer sentido.

Era uma Magrévia."



Vou ali vestir uns collants verdes, dar a mão a uma miúda e voar para a Terra do Nunca com o gajo que escreveu esta merda. JB

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Lqweitqwe zxcom zxchozxcolasdtqwe

Morasdl asdad hisdasdtóriasd: sdo qwentornqwes lqweitqwe zxcom zxchozxcolasdtqwe no tqwezxclasdasdo. JQWEB

domingo, fevereiro 04, 2007

Polissemia ou trissomia?

Se eu me levasse mais a sério não publicava um texto em que digo que os comandos universais chineses tanto podem ser os paralelepípedos de plástico com botões que se estragam quando aumentamos o volume da televisão, como as divisões especiais das forças armadas chinesas ou os planos superiores do grande irmão que habita em Pequim. JB

sábado, fevereiro 03, 2007

Porque no fundo sou um gajo com estilo

As minhas ressacas chegam sempre com 24 horas de fashionable delay. BF

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Vinte e um gramas






Jeff Buckley era uma mulher preta e gorda, soberana, sabiamente envelhecida e cansada, no miserável corpo escanzelado de um homem branco, demasiado novo, demasiado despenteado.
Ou então, foda-se, era um gajo que não devia ter morrido.

JB

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Dá-me de força

Pontapés nas canelas, arranhões nas costas, nódoas negras nos braços, joelhadas nos genitais, corpos semi-nus encavalitados, o toque do latex na pele... O polo aquático é uma forma dissimulada de sado-masoquismo. JB

Já para não falar de que o bigode está outra vez na moda,

deixei de me interessar por filmes de ficção científica depois de ver um anúncio à nova Gillette Fusion Sensitive Turbo Diesel Ignition Nitro Power Compressor 4x4. JB

terça-feira, janeiro 23, 2007

E agora, uma ideia e uma asneira

A democratização da democracia é uma merda.

BF

domingo, janeiro 14, 2007

A propósito de maleitas

Se há doença hereditária que me preocupa, é a infertilidade. BF

Santa inocência

Só no outro dia, ao observar um quadro cubista, é que me dei conta de que o Fifa 94, mais do que um jogo para a Mega Drive, era um instrumento avançado de pedagogia infantil na área da História da Arte. BF

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Processo ordinário

- A tua vara também é de pequena instância? JB

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Um grande Hurra para 2007


Maria Sharapova

Com o devido fashionable delay e um rasgo de poliglotismo. BF

Mesmo, mas mesmo mesmo barato

"Estudo: Nascer em Badajoz é mais barato do que em Elvas"

Mas ainda andam a contar os tostões, agora que o governo alemão dá 5 mil contos de bónus de vitória por cada Hans que nasça? BF

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Inócuo (porque o vácuo é primo da vaca)*

Abro os olhos precisamente uma hora depois de os ter fechado. Não sou gajo para adormecer à frente da televisão - imaginava-me esse tipo de sujeito apenas daqui a umas décadas, quando já não precisar de me cultivar, homem sagaz e instruído que serei, mas a cena é que ainda estou numa fase de formação intelectual. E perder uma hora do “Clube Morangos” é capaz de não ser dos moves mais didácticos, tendo em conta a pessoa que eu quero ser. Fico desiludido comigo quando não tenho a disciplina suficiente para fazer o melhor para o meu futuro. Eu sei que consigo enfardar mais cereais à frente da televisão a ver o “Dança Comigo”. Eu sei que tenho capacidade para fazer mais e melhor. Tomo por isso a decisão de compensar à noite. A programação da televisão generalista tem esse lado solidário, dá-nos sempre uma segunda oportunidade de enriquecimento intelectual. E uma terceira. E por vezes uma quarta. Até conseguirmos comer quase tão bem de boca aberta como Pedro, o Milionário. Alguém que se preocupe minimamente com o seu futuro sabe do que falo. Mas não era sobre isto que vos queria falar.

Vinha falar-vos, isso sim, do Processo de Bolonha e das suas implicações no crescimento da população de moscas-da-fruta equatorianas. Não, estou a brincar. Apanhei-vos, ein? Já estavam quase a virar a página e a pensar “Que chatice! Outra vez a falarem sobre as moscas-da-fruta equatorianas”, quando de repente vos surpreendi, não foi? Ai, isto foi muita giro.

Bom... eu vinha mesmo falar-vos daquilo com que comecei o texto: a vasta oferta de entretenimento de qualidade na televisão portuguesa. Considero que é um bom tema. A minha mãe também considera. Aliás, eu perguntei-lhe: “Mãe, consideras este tema um bom tema?” e ela disse “Considero”. E a verdade é que fui eu que o escolhi. Poderia parecer a uma primeira vista que eu não tenho grande coisa para partilhar convosco sobre esta matéria e que me perco em rodeios evasivos completamente inúteis, mas, reparem, nada mais precipitado. Tomem o exemplo das miragens. Um indivíduo parece que vê qualquer coisa e depois, pimba, não era aquilo que parecia que via. Estão a ver onde quero chegar? E se o sítio onde quero chegar mais não seja que a tal miragem? E eu mais não esteja do que a encobrir a falta de conhecimento que devia possuir para escrever este artigo? Nesse caso, a perspectiva real seria a de que de facto sou uma má escolha para escrever sobre novelas recicladas e versões teenager do Big Show Sic. Mas e se o aparente vazio de substância que vos ofereço não passe de uma maneira de veicular a ideia de vacuidade do próprio objecto sobre o qual me propus escrever?

* (Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) BF

O Download Idealista*

Penso sempre duas vezes antes de premir o botão. Penso ao ritmo trémulo dos dedos que gotejam, atormentados com a propaganda intimidatória que de súbito descobri. Desde que me senti ameaçado que olho para este pedaço de plástico de maneira diferente. Este botão, amigos, não é um botão qualquer. Gosto de pensar nele como um botão-mealheiro, um botão-amigo. E a verdade é que me tem possibilitado experiências verdadeiramente maravilhosas. Diga-se mesmo, em jeito de nota, que já me proporcionou umas férias estupendas, de tão wallet-friend que é. Mas este botão é também, inevitavelmente, um botão em perigo. Sucessivas ameaças e ataques sobre o uso indiscriminado e imoral da tecla têm-me feito reflectir duramente sobre a minha legitimidade para o fazer. Dizem-me que estou a tirar o pão da mesa a malta que, deste modo, mal tem para comer. Que os roubo impunemente, deixando-os à pobreza e ao frio, mundano gatuno. Normalmente, é por esta altura que solto uma gotinha, coração mole que sou. Depois caio em mim, dou um salto na cadeira e revolto-me.

Afinal de contas, sempre que os vejo no cubo mágico me parecem felizes. Felizes e ricos. Bem mais ricos que eu. Ricos o suficiente para não aparentarem a mínima afectação pelos furtos a que os submeto. Ora, isto faz-me reflectir sobre a coisa e achar um ideal social escondido nesta ladroagem. No fundo, ao premir o botão, mais não estou a fazer do que a combater o fosso social que fende a nossa sociedade. Não ao bom jeito do comu…comun, porque não tenho mais comida na mesa ao fim do dia por causa disso, mas mais com a intenção de não alimentar até proporções estupidificantes a riqueza desta cambada, através da depauperação do meu extracto bancário. Deste modo aproximo-os da realidade e do resto da população mundial, ao mesmo tempo que me proporciono uma fonte de conforto – conforto esse a que posso ficar viciado, podendo mais tarde recompensá-los pelo mérito, caso sejam realmente bons, através da aquisição de material original e/ou ingressos para actuações ao vivo. “E se forem humildes artistas em início de carreira?” perguntam vocês. Bom, nesse caso faço questão de os divulgar aos meus mais chegados, os quais, se os acharem dignos, poderão igualmente recompensá-los pelo mérito, com todas as vantagens que já vimos daí poderem advir. A base deste ideal é sempre, portanto, uma meritocracia exigente e não a doutrina dos vermelhinhos. Ouro sobre azul.

Penso sempre duas vezes antes de premir o botão. E hesito sempre perante a pergunta que o computador ingenuamente me faz. E sempre acabo por carregar. Sim! Quero mesmo violar os direitos de autor relativos a esta banda.

*(Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) BF

These Monkeys Haven’t Gone to Heaven*

"Well, sit right down, my wicked son, and let me tell you a story"

O intercâmbio universitário em Porto Rico já ia longo quando Charles Michael Kitridge Thompson IV decide, entre ir passar um ano à Nova Zelândia para assistir ao espectáculo do cometa Halley ou formar uma banda em Boston, surpreender tudo e todos e apanhar o primeiro avião de volta para os States. Tudo por um bem superior. As histórias fétidas das Caraíbas e do seu colega de quarto “estranho, psycho e gay” teriam com certeza o seu tempo de serem imortalizadas. Por agora, Joey Santiago, amigo dos tempos da Universidade de Masssachussets, estava à sua espera em Boston. Era tempo de pôr em prática o conselho que recebera anos antes de uma estrela thai do rock, por curiosidade primo do gerente da florista onde trabalhava, a propósito de uma cover da “Oh Darling” dos Beatles – “Grita como se odiasses a cabra!”

O reencontro com Joey deu origem à banda e a banda deu origem a vários minutos de busca intensa pelo dicionário, que culminaram na palavra “Pixies”, ou de acordo com a engraçada definição de que gozavam, “pequenos elfos maléficos”. Estavam criados os Pixies.

Agora era apenas uma questão de arranjar quem estivesse disposto a entrar nesta visão distorcida de fazer música. E não foi preciso muito até que Kim Deal, de Dayton, Ohio, respondesse ao inusitado anúncio de jornal por um baixista que gostasse ao mesmo tempo dos ícones folk Peter, Paul & Mary e dos punkers hardcore Hüsker Dü. Resposta dois em um. Não só arranjaram uma baixista, como Kim Deal ainda trouxe David Lovering – convidado do seu casamento e baterista disponível. Os planetas conjugavam-se por fim para o início do projecto que viria a abrir uma brecha no praticamente inexistente panorama do rock alternativo.

Verão de 1986. Nasciam os primeiros acordes a partir da garagem do pai de David quando a primeira oportunidade de actuação surgiu. O Rat Club de Boston abria-lhes as portas... para o que viria a ser descrito como “possivelmente o pior concerto da história do rock”. Outras actuações manhosas e noites em “hotéis infestados com baratas em sítios desconhecidos como Kansas” se seguiram, até que um golpe de sorte lhes concedeu uma abertura de concerto dos conterrâneos Throwing Muses, no Rathskeller. A oportunidade perfeita. E perfeita foi, despertando a atenção de diversos agentes, de entre os quais se destacou Gary Smith, produtor e agente dos estúdios de Boston Fort Apache. “Não vou conseguir dormir enquanto vocês não forem conhecidos a nível mundial”, revelaria mais tarde como tendo sido o seu pequeno pensamento do dia.

Aproveitando a onda, a banda de Charles Thompson, agora auto-intitulado Black Francis, edita dois álbuns nos dois anos seguintes – “Come on Pilgrim” e “Surfer Rosa” – e apanha a boleia do sucesso do último, considerado Álbum do Ano pelas revistas Melody Maker e Sounds, até ao Reino Unido, onde actuaria como banda de suporte dos Throwing Muses. Nas palavras de um crítico inglês – “A melhor actuação conjunta desde que os romanos decidiram meter cristãos e leões na mesma arena”. Em inícios de 1989 sai o terceiro trabalho – “Doolitle”. Provisoriamente intitulado “Whore”, “Doolitle” tinha um feeling mais leve e menos surreal que os anteriores discos, rodando à volta de questões mais terrestres como o balanço entre a natureza e o desejo de progresso do Homem, do qual a faixa “Monkey Gone To Heaven” é o exemplo extremo.

Os concertos espalhavam-se pelo globo, nesta altura, de uma forma absolutamente alucinante. O calendário de actuações era cada vez mais apertado, cada vez mais humanamente impossível. Três álbuns nos últimos dois anos. A insustentabilidade da situação tornou-se evidente quando um concerto em Boston revelou uma Kim Deal completamente embriagada e um Joey Santiago a partir os instrumentos todos antes de sair disparado do palco. Aquela era a altura para umas férias - Joey foi para o Grand Canyon para “se encontrar”, David voou para a Jamaica para conhecer as propriedades medicinais da maconha e Charles, avesso a aviões, comprou um Cadillac amarelo para cruzar a América com a namorada, tocando pelo caminho em bares “play to pay”, por forma a arranjar dinheiro para a mobília do seu novo cubículo em LA. Quanto a Kim, juntou-se à guitarrista dos Throwing Muses (Tanya Donelly), à baixista dos Perfect Disaster (Josephine Wiggs) e ao baterista dos Slint (Britt Walford) e juntos formaram os “The Breeders”. O fim dos Pixies parecia certo.

O futuro, no entanto, deu as suas voltas e não foi preciso muito tempo para que os trabalhadores do LA’s Master Control Studio pudessem testemunhar o regresso do conjunto. Um quarto álbum da banda já estava em processo de gravação – “Bossanova”. Dominado pela ficção científica e pelo surf, dele saiu “Velouria”, single que viria a aguentar-se algum tempo no quarto lugar do top norte-americano. Novo álbum, nova digressão pela Europa. Nova digressão, nova necessidade de férias, após as quais surgiu o mal-agraciado pela crítica, embora adorado pelo público, “Trompe Le Monde”. Estávamos agora em 1991. E parecendo contradizer o sucesso que a digressão de “Trompe Le Monde” tinha acabado de ter, os Pixies entram de novo de férias. Tantas vezes tinha Pedro afirmado a visão do lobo, que já ninguém acreditava no que umas férias no show-biz normalmente significavam. Foi com espanto, portanto, que os atentos à BBC ouviram, em Janeiro de 1993, a resposta de Black Francis a propósito de uma questão sobre a suposta separação dos Pixies – “Sim… Numa palavra, sim”.

Esta implosão acontecia na mesma altura em que uma mão cheia de bandas do lado alternativo do rock – sendo os “Nirvana” a mais conhecida – encontrava agora uma vasta audiência para a sua música fortemente influenciada pelo grupo de Boston. Kurt Cobain viria mesmo a dizer numa entrevista, algum tempo mais tarde, que “Smells Like Teen Spirit” mais não era do que a sua tentativa falhada de escrever uma música de Pixies.

Um dia passou, outros dias passaram. O conjunto de Black Francis, o qual mudara outra vez de rótulo para Frank Black, era agora apenas um motivo de nostalgia.

Porém, o inesperado aconteceu no Verão de 2004. Mais de dez anos depois da última aparição, a banda de Boston preparava uma nova digressão mundial. E Portugal estava incluído na lista! Superbock Superrock 2004. Resultado: aquele sucesso. Diz quem os vira há dez anos, que estavam lá. No sítio em que ficaram, como se décadas fossem coisas menores, como se cabelos brancos fossem amendoins. Paragem seguinte: Paredes de Coura 2005.

Quanto a mim, já me proporcionara horas suficientes de auto-flagelação pela ausência. Este ano, no entanto, dei descanso ao cilício: Pavilhão Atlântico 2006. Finalmente, a oportunidade para assistir a uma coisa a sério, com tempo, sem as restrições a que um festival obriga. E ouvir a “River Euphrates” naquele ambiente cozy (chiça!) foi das melhores coisinhas que me podiam ter acontecido. Fosse eu um homem rico e em vez de comer 30 pães e usar um kikuto rasgado no cu Janelo style, distribuía best of's destes cotas pela mocidade.


* (Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) BF

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Epifania



"We had a falling-out, like lovers often will
And to think of how she left that night, it still brings me a chill
And though our separation, it pierced me to the heart
She still lives inside of me, we've never been apart."

Ela só precisava de mais alguém para lhe satisfazer a curiosidade e a insegurança. Ele, num rasgo cego de ecologia, deitou as cartas e as fotografias na reciclagem. JB

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Last Christmas


Karolina Kurkova

No Natal passado dei-te o meu coração, mas logo no dia seguinte deitaste-o fora. Este ano, para me poupar às lágrimas, vou dá-lo a alguém especial. JB

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Armenian Rhapsody*

Desliguei o carro. Ali, naquele parque de estacionamento à beira do rio, estava sozinho com o vento e com a voz do Marvin Gaye que vinha do carro ao lado. Olhei pela janela. Não estava uma noite particularmente fria, pelo que não cheguei a perceber porque carga de água os vidros daquele Nissan Micra vermelho embaciavam. Senti uma ligeira corrente de ar e lembrei-me do aviso da minha mãe – que não fosse assim para a rua, que levasse agasalho, que aquele vento dava cabo da garganta. Vesti a camisola, dei à manivela para fechar a janela e liguei o rádio. “Lets’s get it on... Whoa! Let’s get it on!” Ao que parecia, também no carro ao lado estavam a ouvir a marginal. Tirei o CD do porta-luvas.
Welcome to the soldier side, where there’s no one here but me. People all grow up to die... There is no one here but me”.

Já não me recordava há quanto tempo tinha passado para o lado deles. Há muito, com certeza – o tempo suficiente para não me recordar. Lembrava-me, isso sim, da primeira vez que me tinham perguntado o porquê de gostar tanto de System of a Down, se não apreciava por aí além bandas aparentemente semelhantes.
- Meu, System, brutalíssimo, naquela, grandes mamados, curtes Slipknot? E Maiden?
- Bom, digamos que System está para o pesto assim como Iron Maiden está para a vinha de alho. São ambos pastosos e vêm em frascos parecidos. Mas é só.

Everybody’s going to the party have a real good time”. Parei de tocar bateria no volante e no tablier quando me lembrei de que eu era o único gato pingado que não tinha ido à festa porque já tinha “coisas combinadas” e estava com “um torcicolo daqueles”. A verdade é que o meu pescoço nunca tinha estado em tão boa forma e a “coisa combinada” era precisamente aquilo, ouvir a minha banda preferida com o Tobias, o meu peluche, no lugar do morto. Mudei de música. “My cock is much bigger than yours!” Não percebi porque raio alguém escreveria uma música sobre galos, mas ali estavam eles a garantir-me que o deles era muito maior do que o meu. Em todas as músicas, aqueles quatro rapazes arménios pareciam querer dar-me algum recado, uma qualquer mensagem subliminar escondida naqueles deliciosos versos. Acabei por me conformar com a ideia de que o que eles queriam mesmo dizer é que o Danny e a Lisa os levavam para os sítios mais estranhos, onde gonorreia e gorgonzola eram uma e a mesma coisa, onde uma mesa para dois os esperava com amoras doces, onde o teu afilhado pudesse comer toda a relva que desejasse mas não chegasse a comer o peixe, onde os rapazes fizessem questão de usar um vestidinho de vez em quando e onde, enfim, todos aprenderíamos a derrota com pêgas de maus pés – e que nada disto era uma metáfora ao amor ou ao sexo.

A verdade é que não era fácil definir os System of a Down. Banda de metal? Segundo os próprios, essa era apenas mais uma das cores que utilizavam nessa arte plástica que, a par do futebol, é a música. Era simplesmente demasiado redutor pensar em System nesses termos. O vocalista Serj Tankian forrara as paredes da sua sala-de-estar com uma impressionante colecção de CD’s. De jazz. Daron Malakian, o guitarrista, enquanto se confessava sincero admirador dos talentos de Britney Spears, percebia que tinha formado a primeira banda que conseguia ser “agressive and poppy” ao mesmo tempo, mas não ao jeito de James Blunt, que também é agressivo de se ouvir. Enfim, a minha vontade de dançar disco todo nú na Kapital de cada vez que ouvia a extremamente dançável “Bring Your Own Bombs” e aquele gritinho étnico de Serj, importado das extintas tribos nómadas da Ásia Menor e respectivos rituais de iniciação à prática do arco e flecha a cavalo, denunciavam uma banda que, nas eloquentes palavras do baterista John Dolmayan, “doesn’t sound like anyone else. I just consider us System of a Down”. É nesta rapsódia de sons e cores e sabores e papaias que se percebe uma banda que, segundo Daron, foi formada “just to show people, «look, not everything has been done before»”. Afinal de contas, não era preciso adorar satan, matar os pais e/ou desenhar uma lágrima ao canto do olho para se gostar de System of a Down.

Agora, no carro, tentava arranjar uma ligação qualquer entre System, Slipknot, natas para bater e molho béchamel, mas distraí-me com o carro do lado. Aparentemente, quem quer que estivesse dentro daquele Micra era fã dos arménios. Pelo menos a suspensão balançava ao ritmo do baixo de Shavo Odadjian. Sempre me disseram que temos de ser uns para os outros, pelo que decidi pôr o volume no máximo. “It’s a violent pornography, choking chicks and sodomy...
- Colega, importa-se de pôr isso mais baixo?
O vasto símio surpreendeu-me de cuecas e meias à janela, arfando. Confesso que fiquei contente por ter encontrado um colega e por partilhar aquele horário de expediente com alguém.
- Peço imensa desculpa.

Desliguei o rádio e observei o meu colega a dirigir-se em esforço para dentro do seu bólide, a voltar para os braços da amiga que espreitava pela porta entreaberta. Coitados, se calhar estão em viagem e querem dormir. Liguei o rádio outra vez e pus o volume assim mais baixinho, numa música assim mais calminha. “Such a lonely day... And it’s mine, the most loneliest day of my life.” O pleonasmo não me pareceu redundante. Fechei os olhos, encostei o banco para trás e continuei a ouvir. “Such a lonely day... Should be banned. It’s a day that I can’t stand.” Reparei no sentido de humor que há muito apregoava àqueles rapazes e percebi porque razão diziam que as suas músicas mais tristes eram, invariavelmente, as mais engraçadas. “And if you go, I wanna go with you. And if you die, I wanna die with you.

Acordei com o sorriso babado com que adormecera. O relógio marcava já uma hora que podia muito bem pertencer a outro fuso horário, o Nissan Micra vermelho já lá não estava e a música era já outra. “I’m just sitting in my car and waiting for my girl.” Ainda pensei em ir ter com o resto da malta, beber umas cervejas, mas continuei ali sentado, no carro que não tenho, à espera da minha miúda.



* (Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) JB

Carta à minha mãe*

“Mãe,

Está quentinho, cá dentro. Ainda não nasci, mas cresci muito desde que há dez semanas tu e o pai ouviram aquela música calminha muito bonita e passaram a noite juntos. Já tenho uma cabeça muito grande, mãe, maior que o resto de mim, e se já abrisse os olhos conseguia ver ali ao fundo os meus pés. Ainda falta muito tempo para eu nascer, mas já não me apetece ficar aqui.


Quando eu nascer, daqui a uns meses, prometo que não vou chorar, mãe. Mas tens de dizer ao médico para não me dar uma palmada no rabo, porque eu não fiz nenhuma asneira. Só se ele me der uma palmada é que eu choro. Quando eu conseguir abrir os olhos quero ver-te a ti e ao pai, debruçados juntos sobre mim, a fazerem caras parvas e estalinhos com a língua para me verem a rir. E eu vou rir, embora não vá achar piada às vossas caras, só para vos ver felizes.

Quando crescer vou querer jogar futebol. Acho que quero ser guarda-redes. Ou então vou ser surfista como o tio, porque gosto muito de ouvir o mar. No outro dia fomos passear para a praia, quando ainda não sabias que eu já estava na tua barriga, e ouvi o mar pela primeira vez. Também ouvi o vento, mas não achei tão bonito. O pai também não achou, porque queria namorar contigo e não conseguiu.

Eu também vou querer namorar, mãe, quando for mais velho. Quero conhecer uma rapariga muito bonita e apaixonar-me por ela e dar-lhe a mão num concerto da minha banda preferida. Se calhar também vou querer ter uma banda! E também vou aprender a cantar, porque as raparigas gostam mais dos cantores.

Quando eu andar na escola quero ser bom aluno, mas não quero fazer os trabalhos de casa nem escrever as composições. Acho que não vou gostar muito de escrever. Na escola vou ter muitos amigos e nunca me vou separar deles, porque vão ser os meus melhores amigos. Também quero ter um irmão.

Quando me casar com a rapariga mais bonita do mundo vou comprar uma casa ao pé da praia, para ouvir o mar (já te disse que gosto de ouvir o mar, mãe?), e vou nadar todas as manhãs para não ficar com uma barriga gorda como a do pai. Também vou ter um cão, grande e bonito, rafeiro, e vou passear com ele ao fim da tarde e tirar muitas fotografias, todas ao pôr-do-sol, porque é ao pôr-do-sol que as fotografias ficam mais bonitas. Se calhar quero ser fotógrafo.

Quando eu for grande, mãe, também vou querer ter um filho. Se for menina vai ter o teu nome. Se for menino ainda não sei como se vai chamar. Mas ainda tenho muito tempo para pensar nisso e nem sequer sei o meu nome! Gostava de me chamar como o avô, o avô tem um nome bonito. Acho que o meu filho vai ser inteligente e bonito como a rapariga de quem eu vou gostar.

Quando eu for grande acho que não vou acreditar em Deus. Prefiro acreditar em ti, mãe, porque tu és boa pessoa. Por isso, quando fores velhinha como o avô e morreres, acho que vou chorar, porque não sei para onde vamos quando morremos.

Mas, mãe, ouvi-te falar ontem com o pai, já sei que decidiram fazer um aborto. Tenho pena, porque assim já não vou nascer e eu gostava de ver como é o mar. Mas não faz mal, mãe. Sou muito pequenino, pequenino demais, e tu és a minha mãe, tenho de confiar em ti. Se não fores tu a fazê-lo, mãe, quem mais me protege? Agora ouço-te chorar (não te preocupes, o pai não precisa de saber), por isso quis falar contigo antes de te dizer adeus, embora saiba que nem tu me consegues ouvir nem eu consigo falar. Ou sequer pensar. Mãe, eu nem sei se existo! Se morrer, morro sem fotografias ao fim da tarde, sem ter tido um cão e sem me ter apaixonado. Morro sem ter respirado. Morro sem ter memórias, mãe, mas só porque não mas deixaram ter.

Não chores, mãe. Se calhar és tu que tens razão, se calhar Deus existe e vamos todos para um sítio melhor quando morremos. Só espero que esse sítio seja bonito e que tenha uma praia, porque eu gosto muito da praia… E gosto de ouvir o mar.

Adeus, mãe, e não chores. Tu acreditas em Deus, não acreditas? Então eu acredito em ti.”



* (Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) JB

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Prof. Dr. Bernardino Fernandes

"A gestão de negócios alheios (art.º 464.º do Código Civil) não pode ser entendida como gestão de um negócio jurídico em sentido estrito, mas antes enquanto sinónimo de gestão de um assunto ou interesse alheios. A gestão de negócios deve ser, então, interpretada no sentido brasileiro do termo: gêstão dji nêgócio." (BF dixit)

Isto é Doutrina. JB

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Gira aí o pompom de lã extremamente quentinho, sóce

Duvido muito que estes pequenos produtos de macramé de usar na cabeça constituam uma mais-valia em termos intimidatórios. Estarão então os mitras portugueses a amolecer? BF

Quando a realidade ultrapassa a ficcção

"Europa quer construir o maior telescópio do mundo"

E para o sublinhar vão-lhe chamar Telescópio Europeu Muita Grande (TEMG). BF

Bute gerir

"Governo cria empresa para gerir função pública"

E uma empresazinha para gerir esta empresa de gestão, hum? BF

sexta-feira, dezembro 08, 2006

A propósito do crescimento imparável da Índia

Alheio não será certamente o facto da aliança que está no poder se chamar UPA. BF

Super size me

Foi a gota d'água

terça-feira, dezembro 05, 2006

No way!

"Vento derruba dezenas de árvores no Alentejo"

Não pode ser! Mamã, diz-me que isto não é verdade! (choro compulsivo) BF

domingo, dezembro 03, 2006

Este Blogger saiu-me uma grande Beta

Cheio de corzinhas e upgrades bonitinhos ao princípio, já me está a causar problemas ao fim de dois dias. Acho que a nossa hiperligação morreu. BF

Amigo da onça

"Putin queixa-se a Blair por não ter silenciado Litvinenko"

Não é que o Vladimir normalmente precise de ajuda, mas desta vez bem que o podias ter ajudado, Tony. BF

sábado, dezembro 02, 2006

Hã?

"Enquanto nascerem pessoas, há espaço para novos deuses"

Esta frase é do caraças para começar um texto. Não esta exactamente anterior. Quer dizer, também é, mas estava a referir-me ao aforismo filosófico. Assim uma coisa mais para o profunda, analítica da natureza humana. Tinha-a pespegada num pedaço de papel, se bem que pespegada talvez não seja a palavra certa. Uma coisa pespegada salta à vista. Esta estava assim como que mais para um canto da secretária ao lado do número de telefone da bilheteira do teatro Camões. São pedaços de papel muito intelectuais, estes que povoam a minha secretária. Se calhar até existe uma ligação entre eles, pelo menos entre estes dois. Vale a pena reservar um momento pré-sono para pensar nisso, se bem que quando chega a altura de pensar nessas coisas adormeço.

De qualquer das maneiras, e embora não faça a mínima ideia em que livro de sabedoria milenar ou site brasileiro vi a frase, a verdade é que a pespeguei stricto senso neste pedaço de papel. Do género "Para desenvolver". Mas entretanto esqueci-me do que com ela queria dizer e no pedaço de papel ficou durante meses.

Mas, criando uma metáfora bem bonita, este tipo de frases profundas são como os arbustos que, cortando de um lado, encontram espaço para crescer do outro, o que é como quem diz, dá sempre para desenvolver uma frase destas, senão no sentido originalmente pensado, então noutro a descobrir. Adoro metáforas bonitinhas e que metam árvores. Tudo o que mete natureza é bem bonito.

Agora estive indeciso entre escrever natureza com letra maiúscula ou minúscula e acabei por escrever com minúscula. Será que isto diz muito de mim, tal como as pessoas com quem ando e a comida que como? Não sei, mas sou gajo para reservar mais um momento dos que antecedem o sono com esta questão.

E agora um momento J.. Olhaste-me e as paredes giraram na eternidade das tuas amígdalas a cantarem em coro as tuas veias de silêncio, mãe és tu, e o sol nocturno das nossas adolescências vomitou uma tempestade de cardumes e de cáfilas de seres pequeninos que, ainda me lembro do Verão da aldeia mamã, deste-me a mão choques metálicos no bombear dos glaucomas que me dirigias por entre as árvores da tua esquizofrenia. Lembras-te? BF

Sentido de humor

Diz o tomate para a tomata:
- Tu matas-me!


Adriana Lima
Elas preferem um homem que as faça rir. JB

Low cost studies

"Estudo: Passageiro de «low cost» tem formação superior"

E é gajo para também ter dois dedos de testa, uma guita extra na carteira e gostar de adrenalina. BF

quinta-feira, novembro 30, 2006

Os Serviços Secretos Russos ensinam

"Morreu envenenado o ex-espião russo Alexandre Litvinenko"

"Médicos afirmam que ex-primeiro-ministro russo foi envenenado"

Ao contrário do peixe, a vingança não perde a graça quando fria e por meio de envenenamento. BF

terça-feira, novembro 28, 2006

Admirável (Primeiro) Mundo Novo

"Brasil recebe os primeiros portáteis para crianças a 150 dóláres"

Gosto muito de Portugal. Mas duvido que vá aguentar viver num país em que as crianças não têm portáteis de 150 euros. BF

sábado, novembro 25, 2006

Oh, senhor Conde!

- Como é que um gajo que é de Direito consegue usar um título nobiliárquico?
- Pá, o gajo, antes de ser de Direito, é parvo.

JB

sexta-feira, novembro 24, 2006

Por um momento (VI)

O anfiteatro estava já vazio quando levantei bruscamente a cabeça adormecida nos cadernos e descolei uma folha da bochecha. Estava atrasado para a aula seguinte. Entre uma espreguiçadela, dois bocejos e um limpar de ramelas, meti as canetas à boca, comprimi os livros debaixo do braço e apressei-me dali para fora. Estava com uma sede dos diabos, não resisti ao bar e fui encher um copo de água. Atrás de mim, na fila para a torneira pública, o meu antigo professor de Constitucional segurava num copo vazio.
- Olá, professor!
- Olá...
Não me importei que não se lembrasse do meu nome - quantos mais alunos teria ele tido com um nome igual ao meu? Bastou aquele sorriso timidamente escancarado, debaixo do mesmo nariz de há dois anos atrás, para adivinhar exactamente o que lhe ia na cabeça:
Ena pá, é bom ver-te! És o...? Desculpa, esqueci-me. Ainda és amigo do...? Desculpa, não decorei os vossos nomes, são tantos! É o problema desta faculdade, é ser demasiado grande. Às vezes perdemo-nos cá dentro. Conhecemos as paredes mas não conhecemos as pessoas. Ainda há pouco uma miúda assim da tua idade passou por mim no corredor e lançou-me um sorriso. Não percebi se era porque me tinha visto na televisão ou porque tinha sido minha aluna. Era muito bonita. Há raparigas muito bonitas, cá na faculdade. Estou a ficar velho... De qualquer forma, balbuciei umas quantas palavras desconexas numa língua arcaica que eu próprio desconhecia e sorri-lhe, simplesmente, assim como te sorrio a ti e a todos os que me sorriem, porque não quero parecer antipático. Não sou antipático, sou até um gajo muito porreiro. Tu lembras-te da minha piada do Presidente que nomeava o Melão primeiro-ministro, não te lembras? Essa era muito boa. Só me faltava um microfone e o som do baixo do Seinfeld para as minhas aulas serem espectáculos de stand-up. Já foi há dois anos, pá! Já foi há dois anos... Não quero ser o "senhor doutor", quero o meu passado de volta. Eu só uso gravata porque me diverte! Foi bom ver-te, foi mesmo bom ver-te...
- Tudo bem, João?
- Tudo...
Por um momento desejei viajar no tempo, regressar aos dias em que tudo era mais simples, tudo menos calejado e um poucochinho mais virgem do que é agora. Voltar a entrar naquela faculdade pela primeira vez e fazer tudo de novo, tudo exactamente como fizera. E discutir pornografia governamental com o meu professor preferido.

Ao PL. JB

"Levas agasalho?" (IX)


Virginia Zambuzi
É desta que a minha mãe me expulsa de casa. JB

segunda-feira, novembro 20, 2006

Alhos, aborto e bugalhos

"Já é tempo de perceber que o corpo é da mulher, não do homem."

Eu até curto aquela cena da liberdade de expressão, mas há para aí gente que merecia levar com um pano encharcado na tromba. JB

domingo, novembro 19, 2006

Iliteracia ou poesia?

"Há manhã não sei se venho."

"Há manhã
Não sei se venho."

JB

terça-feira, novembro 07, 2006

Espertos

"Ministério Público espanhol pede 40000 anos para réus do 11-M"

Não vão eles descobrir o elixir da juventude. BF

sábado, novembro 04, 2006

Da cobertura televisiva da precipitação

Chegámos a um nível de monotonia nacional tal que até já temos de fazer conversa nos telejornais. BF

quarta-feira, outubro 25, 2006

A Inevitável Itinerância do Espectáculo*

"GNR prometem «sangue, suor e lágrimas» nos Coliseus"

As perseguições automóveis a alta velocidade já deram o que tinham a dar. BF

*(Muito Milan Kundera esta, hein?)

segunda-feira, outubro 23, 2006

No shit! (II)

"Mulheres têm "um papel decisivo" no tratamento da disfunção eréctil"

Tenho de ver se dou qualquer coisinha a quem cria estes títulos. BF

Arrebenta a bolha!

"Santana Lopes acusa José Sócrates de fazer "batota política"

Após o que disfarçou o beicinho, correndo para fora da sala a soluçar. BF

Não chorem mais

sexta-feira, outubro 20, 2006

Não há festa como esta!

Seguindo as pisadas do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e do Prof. Luís Filipe Vieira, também eu estive este ano na Festa do Avante!, onde me rendi às evidências do comunismo quando deambulava pelos cartazes da barraquinha pró-Fidel Castro que orgulhosamente me garantiam que, dos não sei quantos milhões de crianças que naquele dia dormiam na rua, nenhuma delas era cubana. Fiquei descansadinho. Mas também a barraquinha das FARC me deixou reconfortado cá dentro - com certeza as crianças recrutadas para as suas fileiras teriam um lugar quentinho entre as kalashnikov onde dormir. Lembro-me de, naquele momento, abrir o Financial Times, folhear o Die Welt e ler as gordas do Le Monde Diplomatique, trincar o meu delicioso hot dog capitalista e sorrir estupidamente.
Acordei no dia seguinte ressacado, cambaleando estranhamente para o meu lado direito e convicto de que isto nunca mais andaria para a frente enquanto não invadíssemos mais um país árabe e/ou privatizássemos todas as EPE's, o Tribunal Constitucional (Conselheira Fernanda Palma incluída) e o ar que respiramos. De resto, a experiência ensinou-me ainda como evitar uma camarada estalada - nunca confundir "A Carvalhesa" com "A Marselhesa".
De qualquer forma, não era disto que eu vinha aqui falar. Recebi por carta um convite do PCP por ocasião dos 70 anos da abertura do Campo do Tarrafal. Não me lembro de ter inscrito o meu nome nalgum formulário do partido (ou da revista do partido) enquanto saltava nos Xutos & Pontapés, cantava no Sérgio Godinho ou fumava umas brocas no Boss AC. No entanto, eles sabem o meu nome, eles sabem onde moro.
Eu sabia que não devia ter aceite aquele pin do Álvaro Cunhal! Vou ali procurar por chips e já cá venho. JB

Da ressaca

Será o tremoço pós-reumático uma nova forma de remorso pós-traumático? JB

quinta-feira, outubro 19, 2006

Jean-Paul Floribela Sartre

"O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter."

"Não tenho nada, mas tenho tenho tudo."

JB

Esta equação não é sobre sexo

Mão invisível + Oferta rígida = Óptimo de Pareto

JB

domingo, outubro 15, 2006

Macaquinho do Chinês



JB

sexta-feira, outubro 13, 2006

É oficial

"Ministro da Economia anuncia fim da crise em Portugal"

Ainda bem. Já posso tirar o ar sorumbático e deixar de finalizar todas as discussões com um "Tá mau pa todos". BF

quinta-feira, outubro 12, 2006

Shhht!

"Parlamento francês aprova lei que criminaliza negação do genocídio arménio"

O Pontos Negros aprova, para vigorar a partir de hoje, a criminalização da negação do meu metro e noventa e olhos verdes-pérola. BF

terça-feira, outubro 10, 2006

"As minhas férias" por Bernardino Fernandes

As minhas férias foram longas. E fixes. Lá longas foram. Eu estas férias passeei. Também trabalhei. Acho que posso dizer que trabalhei e passeei. Vi coisas novas que nunca tinha visto antes. Mesmo diferentes. Uma vez, vi uma loja dos correios que conseguia vender ainda mais coisas que as nossas dos CTT. Vendia sapatos. E pantufas. Mas as pantufas não estavam expostas. Nem era costume mostrar as pantufas a qualquer pessoa que entrasse na loja. Senti-me especial quando a senhora me fez a surpresa e me mostrou as pantufas. Gosto muito de pantufas. Acho que ainda fiquei a gostar mais de pantufas este verão. E deram muito jeito, as pantufas, porque choveu muito nas minhas férias e então eu tinha de ficar em casa e como em casa fazia frio, gostava muito de calçar as minhas pantufas. Tinha pena que fossem pantufas e que não as pudesse levar para a rua, quando ia conversar com a senhora da loja, porque enchia as pantufas de lama. A senhora é que me disse um dia: "Não podes levar as pantufas para a rua". Eu perguntei-lhe: "Porquê?". Ela disse: "Porque depois as pantufas se enchem de lama." Depois também me disse: "Sabes, tens de tratar das tuas pantufas tão bem como elas cuidam de ti. Se tratares bem delas, elas continuam a aquecer-te os pézinhos nas noites mais frias. Se não lhes deres atenção, elas pensam que já não gostas delas e deixam de ser tuas amigas." Eu já tinha ouvido aquilo. Aquela senhora parecia mesmo aquela minha tia-avó que vivia naquela casa grande que cheirava muito a chichi de gato e de quem a mamã falava sempre baixinho. Eu gostava muito da minha tia-avó. Ela dava-me sempre um rebuçado e deixava-me tocar no cãozinho dela, que ainda lhe fazia companhia ao lado da cadeira de baloiço, mais quietinho agora depois de morto. Tive muita pena quando a minha tia-avó foi para o céu. E também tive muita pena quando me despedi da senhora da loja e percorri aquele caminho da lama para casa pela última vez. Sujei as minhas calças preferidas todas, aquelas com o remendo do foguetão no joelho. Mas foram umas férias mesmo fixes. Agora que acabaram estou muito contente por começar as aulas e reencontrar todos os meus amigos. Este ano vai ser mesmo espectacular! BF

segunda-feira, outubro 09, 2006

Da ira (parte primeira)

"Oh João, o João é inteligente. Teve aqui algumas respostas intuitivas. Vá lá, criativas! Agora, estudar, João? Estudar é que não é consigo!"

Na minha faculdade há coisas muita giras. De entre as coisas muita giras que há na minha faculdade, há uma coisa mesmo muita gira, talvez a coisa mais gira de todas as coisas muita giras que há na minha faculdade. Essa coisa mesmo muita gira que há na minha faculdade é um professor, muita giro, giro que se farta, giro como o raio, de intocável melena negra de surfista e imaculado nó de gravata assim em jeito de pendant com dois cintilantes olhos verdes. Este professor não é só estupidamente giro como conseguiu desenvolver ao longo dos anos um charme bestial e um jeito peculiar de ter piada, mesmo quando não tem piada nenhuma. O homem faz rir e suspirar a menos azeiteira das raparigas; obriga uma lésbica a repensar seriamente a sua sexualidade.
Mas chega de bajular, não era disto que eu vinha aqui falar. Estamos no início de um novo ano lectivo: época de moderação, época de estudo, época de pudor por tradição - não fosse a vibrante e escandalosa explosão de cores nos cartazes e panfletos das festas de recepção aos caloiros(as), dos super-arraiais da reentrée académica, das mega-festarolas da cerveja (e da laranjada) e das ultra-party-people-in-the-house-celebrate-everybody-tonight. É que, por causa do giríssimo professor David Festas (nome fictício), o mais próximo que aqui o yours trully estará de uma imperial será ao sorver o leite achocolatado quentinho, olhando para fotografias noctívagas e desfocadas, adivinhando consigo mesmo o giro que teria sido lá ter estado. Percebem a ironia? Perder as festas - por causa do Festas?!
Enfim, não garanto que haja uma relação directa entre a humilhação que alegremente sofri na oral daquele dia (cfr. supra) e o episódio em que "não, senhor professor", não sabia a resposta àquela pergunta e estava apenas "a coçar o nariz, senhor professor", mas sempre desconfiei de quem insistia em chamar-me João Bechau porque os meus érres pareciam cês e os meus énes pareciam ús.
Mas agora é que não, senhor professor, estudar não vai ser comigo! Privilegiarei a minha criatividade acima de tudo e pintarei um Guernica jurídico na gravata do senhor professor com os pincéis que tenho cá dentro! Serei intuitivo como o caraças, serei mesmo muita intuitivo, intuitivo como uma mulher em TPM! Mas uma coisa lhe garanto, senhor professor... Estudar não vai ser comigo.
Professor David Festas, este rapaz vai para as festas! JB
Voltámos. Altius, fortius, lindíssimius. O Bernardino cortou os pêlos do nariz, o João desenvolveu bícepes na testa e o Rodolfo, já sem pescoço, não consegue coçar as costas. Esperamos que apreciem.

terça-feira, agosto 01, 2006

Hot Town (tempo de pôr os pés de molho)


Karolina Kurkova

"- Anda lá, miúda!
- Espera, vou só desejar boas férias às pessoas e já cá venho."

Temos mesmo de ir. Carlão, o proxeneta, está à nossa espera. BF/JB

sábado, julho 29, 2006

Geek

Acabo de dificultar a vida a um bot qualquer que me fez perder 10 minutos a deletar as 570 comment notifications de elogio anglo-saxónico anónimo que nos mandou no mesmo dia. Quase que me sinto confiante para passar aquele nível lixado do dragão em que a Rainha Anã me dá a Tocha da Luz Eterna. A raça humana prevaleceu mais uma vez. BF

sexta-feira, julho 28, 2006

Keep it simple

- Bute ver uma exposição?
- Sobre?
- Lê a descrição - "As pinturas de Kees Goudzwaard parecem filiar-se directamente na pintura modernista, parecem deter-se na exploração da natureza bidimensional do plano, referidas unicamente a si próprias. No entanto, Kees Goudzwaard introduz, no cerne do seu processo de trabalho, a questão do mimetismo. As suas pinturas aproximam-se, de forma desconcertante, da tradição multi-secular do trompe l’oeil."
- E o Benfas, sabes a que horas joga?


BF

quinta-feira, julho 27, 2006

O poder da sabedoria popular

segunda-feira, julho 17, 2006

Twilight Zone

E naquele momento tudo parou.
O barulho dos carros reduzia-se a um mínimo, procurando não desconcentrar os olhares menos disciplinados, quando me apercebi da estranheza daquele fim de tarde quente. O fumo de um cigarro subia abandonado pelo ar e criava o ambiente noir daquela tira a preto e branco onde me movimentava a vermelho. Olhei devagar em volta. Não era o lugar nem o momento para movimentos bruscos. Ninguém parecia se ter dado conta de que ali estava e eu queria manter essa situação o maior tempo possível. Pelo menos até perceber o que se passava ali. Não me pareceu difícil. As verticalidades à minha volta estavam demasiado concentradas naquela parede, como quem olha no céu o cometa que se aproxima em rota de colisão. Apáticas, imóveis, expectantes. Mas este não era um serão científico ao ar livre. Ainda que peculiar, eu ainda considerava aquele espaço um café. Rústico, demasiado rústico, mas um café. Retornei a olhar as pessoas. Respiravam uma falta de vida, que já me começava a afectar. Sentindo-me a desfalecer, olhei para a parede, por fim. O que lá vi prendeu-me. Apercebendo-me de um golpe de estado encefálico, tentei soltar uma perna. A ordem que noutra altura teria sido diligentemente cumprida, era agora ignorada de modo cruel. Perdia a cada momento que passava qualquer domínio que ainda detivesse sob o meu corpo. As imagens que via entravam-me pela retina e reforçavam a acção neurotóxica de que era alvo. Enfraquecia aos poucos e aos poucos desistia, cedendo o controle. Instantes depois, o processo de transformação finalizou-se. A tira a preto e branco homogeneizara-se.
E o último episódio da novela da TVI continuou. BF

domingo, julho 16, 2006

Eye of the tiger

Há cinco meses atrás saí do aeroporto e começou a chover.

- Pim pim pim! Ali, bem aviadinho.
- Quem, quantas? Bem boa!
- Mmghf! Grmnp!
- Narciso!
- Este gajo não joga nada.
- Não gostas, faz melhor!
- Foste convocado? Não? Então cala-te!
- Fala para este que este não ouve.
- Alice!
- Isso é estúpido.
- Tu é que és estúpido!
- Maratona!
- Estás a dormir na baliza, Fangio.
- Ali, todo Fittipaldi.
- E hoje o que sou? Eu aprendi vivendo...
- Pa-pa-papagaio!
- Tu-tu... tu-tu...
- Gosto de bacalhau com natas.
- Tu é que gostas de bacalhau com natas!
- Regina, oh Regina!
- Vag...
- Já foste!
- Contigo não dá para falar.

Ao Miguel, ao João, ao Gonçalo, ao Hugo, ao Zé, ao Carlos, ao Nuno, ao André, ao Pedro e ao António (nomes fictícios), por fazerem parecer que ter uma namorada gira em Erasmus é pêra doce. JB

quinta-feira, julho 13, 2006

Será?

"Cavaco Silva homenageia vítimas de violência doméstica"

Pelo estoicismo e espírito de sacrifício demonstrados durante a apanha da bofetada? BF

quarta-feira, julho 12, 2006

Raios partam o canalizador!


Paula Aguiar

JB

sábado, julho 08, 2006

Da série "Quando for grande quero ter a paciência e a habilidade para fazer posts daqueles"

Descobri hoje, com o habitual atraso de que não me livro, que Peter Crouch "serve para tudo, menos para jogar à bola". BF

sexta-feira, junho 30, 2006

Só coisas que nos causam espéce! (versão jurídica)*

Estou cada vez mais preocupadinho com a aparente disseminação de amigos imaginários pelo mundo da doutrina fora. Esta rejeição de terem sido os únicos nerds a pensar naquilo enjoa-me. BF

*título adaptado daqui

terça-feira, junho 20, 2006

A maiori, ad minus

"Mas, Sr. Professor, se o Paulo Portas pode falar de investimento estrangeiro em Portugal de patilhas loiras e camisa aberta, também eu posso fazer a minha oral de chinelos." JB

segunda-feira, junho 19, 2006

Hoje, na Assembleia da República

- Oh Matilde, que biquini fantástico!
- Tens razão, Bia, que biquini giríssimo, o da Matilde! Mas olha que o teu também é de muito bom gosto.
- Acho-os igualmente bonitos. Mas penso que o da Daniela os supera.
- Qual, o meu?
- O teu, sim, Daniela! Fica-te muito bem no corpo.
- Corroboro.
- Muito bem, apoiada!

(aplausos)

- Sabem, não sou da mesma opinião. Considero que a Mimi não só fica melhor de biquini como possui melhor fisionomia que as restantes.
- Olhe que não, Becas, olhe que não...

(apupos)

- Quanto a ti, gémea número um, que te parece?
- Penso que...
- E tu que achas, gémea número dois?
- Que tal se...
- Muito bem, apoiada!

(risos)

- Oh tu que fumas, que estupenda tez morena que aí tens.
- Que me dizem a tirarmos os biquinis e mandarmos umas bombas?
- Muito bem, apoiada!
- Muito bem, apoiada!

(ovação de pé)

JB

domingo, junho 18, 2006

Gang Bang

"Brasil e Venezuela apostam na produção de armas"

Também já me andava a fazer confusão a inconstância e irregularidade nos fornecimentos. Era impossível manter uma luta decente com a polícia federal nos termos actuais. BF

Louvável

Acho muito digno o que os senhores do "Só visto" na RTP fazem em memória do Figo. Não fossem as constantes entrevistas intimistas ao som de músicas adolescentes e eu já me tinha esquecido da sua morte. BF

quarta-feira, junho 14, 2006

Japonês para Principiantes - Lição nº4


Miho Yoshioka

Anata ha sitteru nihonngo ha hennka shinai? - Sabias que os verbos japoneses não se conjugam?

(sendo que anata significa "tu", ha...sitteru "sabias", nihonngo "japoneses", shinai "não" e ha...hennka "conjugam")

BF

segunda-feira, junho 12, 2006

Por um momento (V)

Há um ano atrás tocaste-me à porta. Estava sozinho em casa, sentado no sofá, comendo com premeditado vagar uma pizza que tinha encomendado há minutos atrás. Levantei-me, pousei o prato no chão, espreitei pela janela e não vi ninguém.
- Sou eu, puto.
Já tinhas subido, não me deste tempo sequer de ajeitar o cabelo desalinhado e arrumar a cozinha. Abri a porta. De ombro na ombreira, cruzavas os braços e lançavas-me aquele olhar de quem precisava urgentemente de uma opinião masculina. Estavas gira. Balbuciei umas quantas palavras desconexas numa língua arcaica que eu próprio desconhecia e deixei-te entrar. Desse fim de tarde lembro-me das tuas calças verdes que enrolavas na cintura para que não te caíssem, dos chinelos que trazias nos pés e do cheiro a dunas e a creme nivea. Cheguei a achar que tudo aquilo era de propósito para mim. Percebi, no entanto, que aquela era antes a tua maneira de dizer a toda a gente que eras gira e que tinhas vindo agora da praia e que estavas morena e cheia de sardas e com os cabelos ainda salgados. E que era naquela noite que ias beber a tua primeira imperial.
Sentei-me. Notei que olhavas deliciada para o tabuleiro no meu colo. A pizza era individual e eu morria de fome, mas devoraste-me duas fatias como se de uma média se tratasse. Por um momento desejei ser aquela margarita de massa alta e fofa. Tocaram de novo à porta. Precipitaste-te para a janela e debruçaste-te lá para baixo, como se três andares fossem para ti um rés-do-chão. Devem ser elas... Empurraste o resto da fatia para dentro da boca e roubaste-me o fundinho da coca-cola.
- Miúda, larga lá o rapaz e anda embora! - gritavam de lá de baixo.
Não me lembro ao certo do que aconteceu a seguir, deves ter agradecido a merenda de boca cheia, piscado o olho, tropeçado no tapete e desaparecido pela porta. Adoro esta miúda... Se fosse eu o argumentista da minha vida, aquele dia teria acabado com um beijinho de sabor a chourição, ananás e extra-queijo. JB

terça-feira, junho 06, 2006

A Simplicidade

A comparação, há minutos na TVI, entre o lançamento do novo álbum de D'ZRT e o desembarque dos Aliados na Normandia foi das coisas mais bonitas que ouvi nos últimos tempos. BF

segunda-feira, junho 05, 2006

Codificas-me


Audrey Tautou

JB

Melancómico

sexta-feira, junho 02, 2006

Da série "Conspiro que me farto"

quinta-feira, junho 01, 2006

Desforra