sexta-feira, Dezembro 22, 2006

Carta à minha mãe*

“Mãe,

Está quentinho, cá dentro. Ainda não nasci, mas cresci muito desde que há dez semanas tu e o pai ouviram aquela música calminha muito bonita e passaram a noite juntos. Já tenho uma cabeça muito grande, mãe, maior que o resto de mim, e se já abrisse os olhos conseguia ver ali ao fundo os meus pés. Ainda falta muito tempo para eu nascer, mas já não me apetece ficar aqui.


Quando eu nascer, daqui a uns meses, prometo que não vou chorar, mãe. Mas tens de dizer ao médico para não me dar uma palmada no rabo, porque eu não fiz nenhuma asneira. Só se ele me der uma palmada é que eu choro. Quando eu conseguir abrir os olhos quero ver-te a ti e ao pai, debruçados juntos sobre mim, a fazerem caras parvas e estalinhos com a língua para me verem a rir. E eu vou rir, embora não vá achar piada às vossas caras, só para vos ver felizes.

Quando crescer vou querer jogar futebol. Acho que quero ser guarda-redes. Ou então vou ser surfista como o tio, porque gosto muito de ouvir o mar. No outro dia fomos passear para a praia, quando ainda não sabias que eu já estava na tua barriga, e ouvi o mar pela primeira vez. Também ouvi o vento, mas não achei tão bonito. O pai também não achou, porque queria namorar contigo e não conseguiu.

Eu também vou querer namorar, mãe, quando for mais velho. Quero conhecer uma rapariga muito bonita e apaixonar-me por ela e dar-lhe a mão num concerto da minha banda preferida. Se calhar também vou querer ter uma banda! E também vou aprender a cantar, porque as raparigas gostam mais dos cantores.

Quando eu andar na escola quero ser bom aluno, mas não quero fazer os trabalhos de casa nem escrever as composições. Acho que não vou gostar muito de escrever. Na escola vou ter muitos amigos e nunca me vou separar deles, porque vão ser os meus melhores amigos. Também quero ter um irmão.

Quando me casar com a rapariga mais bonita do mundo vou comprar uma casa ao pé da praia, para ouvir o mar (já te disse que gosto de ouvir o mar, mãe?), e vou nadar todas as manhãs para não ficar com uma barriga gorda como a do pai. Também vou ter um cão, grande e bonito, rafeiro, e vou passear com ele ao fim da tarde e tirar muitas fotografias, todas ao pôr-do-sol, porque é ao pôr-do-sol que as fotografias ficam mais bonitas. Se calhar quero ser fotógrafo.

Quando eu for grande, mãe, também vou querer ter um filho. Se for menina vai ter o teu nome. Se for menino ainda não sei como se vai chamar. Mas ainda tenho muito tempo para pensar nisso e nem sequer sei o meu nome! Gostava de me chamar como o avô, o avô tem um nome bonito. Acho que o meu filho vai ser inteligente e bonito como a rapariga de quem eu vou gostar.

Quando eu for grande acho que não vou acreditar em Deus. Prefiro acreditar em ti, mãe, porque tu és boa pessoa. Por isso, quando fores velhinha como o avô e morreres, acho que vou chorar, porque não sei para onde vamos quando morremos.

Mas, mãe, ouvi-te falar ontem com o pai, já sei que decidiram fazer um aborto. Tenho pena, porque assim já não vou nascer e eu gostava de ver como é o mar. Mas não faz mal, mãe. Sou muito pequenino, pequenino demais, e tu és a minha mãe, tenho de confiar em ti. Se não fores tu a fazê-lo, mãe, quem mais me protege? Agora ouço-te chorar (não te preocupes, o pai não precisa de saber), por isso quis falar contigo antes de te dizer adeus, embora saiba que nem tu me consegues ouvir nem eu consigo falar. Ou sequer pensar. Mãe, eu nem sei se existo! Se morrer, morro sem fotografias ao fim da tarde, sem ter tido um cão e sem me ter apaixonado. Morro sem ter respirado. Morro sem ter memórias, mãe, mas só porque não mas deixaram ter.

Não chores, mãe. Se calhar és tu que tens razão, se calhar Deus existe e vamos todos para um sítio melhor quando morremos. Só espero que esse sítio seja bonito e que tenha uma praia, porque eu gosto muito da praia… E gosto de ouvir o mar.

Adeus, mãe, e não chores. Tu acreditas em Deus, não acreditas? Então eu acredito em ti.”



* (Texto publicado na revista "Iuris Grafia", ed. Outubro, Novembro, Dezembro '06) JB

8 Comments:

Blogger JPC said...

Pois este, meu caro, está fenomenal :) Aquele Abraço

24 Dezembro, 2006 23:57
Anonymous Anónimo said...

É preciso tomates para se escrever contra o aborto numa revista universitária. Parabéns. ;)

27 Dezembro, 2006 11:57
Anonymous Anónimo said...

sim..a minha mãe também chorou..e sim, sei que isto é motivo para te regozijares (nem sabes como me custou escrever esta palavra..lol..só com ajuda do amigo que comentou aí em cima)! E aposto que aconteceu o mesmo a outras mães. És uma mravilha (tipo, das 8 maravilhas do mundo..hehe).
e o outro anónimo não sou eu!:)

27 Dezembro, 2006 19:05
Blogger Sofia said...

Já comentei pessoalmente este texto, tinha acabo de ler, estava fresquinho. Achei uma manipulação extremamente excessiva de um tema demasiado delicado. Não é um artigo de opinião, apesar de ter uma opinião implicita, contudo não o torna num artigo de opinião. É romance e subversão de conceitos. Para dizeres o que pensas não era preciso tanto, aliás, de mim teria muito mais aceitação em termos de credibilidade se escrito de outra forma. Dizes que é por eu ser de esquerda que fiquei perturbada mas toda a opinião tem o seu lado "do avesso" e eu conheço muito bem o meu e porque penso nele muitas vezes, sem precisar de analogias a bebes pensantes. Demasiadas. Incomodou-me profundamente ver ligeireza disfarçada de profundidade literária. Que escreves muito bem já eu sabia mas romancear o aborto para chocar mentalidades parece-me facilitismo. Puxar ao sentimento não me parece a melhor politica. Ninguém aborta de ânimo leve e dizer o contrário é infantilidade. Aborto não é ir ao cabeleireiro. O drama não tem só um lado, tem dois. Acho que tens um talento especial para escrever, mas desta vez não gostei. E para contrariar a tendência instalada, a minha mãe também não.

07 Janeiro, 2007 04:11
Anonymous Anónimo said...

O drama tem dois lados, e este é aquele que nunca se chega a ouvir porque o outro, aquele que alguém, algum dia, deixou nascer, consegue HOJE falar mais alto.

16 Janeiro, 2007 23:39
Anonymous Um amigo da tua mãe said...

Haja consenso no blogue! A julgar pelo texto - bonito, bem escrito, importante e tal - se calhar não é assim tão disparatada a iniciativa do CDS.

Quarta-feira, Junho 01, 2005

Dia Mundial da Criança por Nascer

O CDS-PP propôs hoje a criação do Dia-Mundial-da-Criança-por-Nascer. A sério.

Eu proponho ainda, na mesma linha, o Dia-Mundial-da-Concepção-da-Criança e o Dia-Mundial-Desse-Belo-Momento-que-é-o-Nascimento-da-Criança.

Ou é para sensibilizar a opinião pública relativamente "à vida humana e intra-uterina" ou não é. Iniciativas tímidas é que não. BF
In Pontos Negros

Ficam os parabéns pelo facto de teres ousado publicar o dito na revista universitária. Perdes em popularidade mas ganhas em espinha dorsal para a vida, o que dá sempre jeito. Um abraço anónimo.

17 Janeiro, 2007 11:32
Blogger Ponto Negro said...

Um amigo da tua mãe,

dá uma vista de olhos à autoria de cada um dos textos. BF

18 Janeiro, 2007 22:57
Blogger Sara said...

Não sei se eu realmente entendi tudo que ele disse, mas isso me fez pensar um pouco sobre a importância de certas coisas que eu acho que devemos cuidar melhor de seus entes queridos, então eu sempre dou meus cães a melhor comida, espero continuar dando Frontline

30 Junho, 2013 16:03

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